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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

A Progressão Marcial

 Introdução

Iniciei meus estudos em artes marciais, seriamente, por volta de 1995. Já tive a oportunidade de treinar várias escolas de vários estilos, algumas mais voltadas para lutas e outras mais voltadas para a cultura. Sinceramente não consigo categorizar essa ou aquela modalidade como melhor ou pior. São apenas espectros diferentes de um mesmo raio de luz. Existem professores bons, professores ruins, alunos bons e alunos ruins. A qualidade do aprendizado dentro da arte-marcial tem muito mais a ver com o compromisso, disciplina e a dedicação do que com a modalidade ou professor. Já conheci péssimos alunos de ótimos professores e excelentes alunos de professores terríveis e posso afirmar com pouca chance de errar que:

"...o coração puro e dedicado é como uma fonte de água no topo de uma montanha, o caminho para o mar pode até não ser o mais fácil e simples, mas ele fatalmente irá encontrar seu destino, basta fluir..."

Autor por mim desconhecido

Então já adianto ao leitor que esse texto não trata de pontuar quem é melhor ou quem é pior. Não há ponto negativo ou positivo no que vou colocar como minha visão. Sou profundo apreciador das artes-marciais que vou citar. Já tive a oportunidade de treinar todas (e muitas outras mais), algumas com mais dedicação, inclusive me graduando, e outras com apenas para conhecer.

Para evitar que o leque de análise fique muito extenso, irei me deter apenas a algumas artes-marciais japonesas e apenas as mais conhecidas por mim.

Se algum praticante de alguma arte marcial discordar de mim em algum aspecto ou tiver uma opinião contrária: Quem Bom! Não me considero detentor da verdade absoluta do universo e nem tenho a pretensão de "converter" alguém para a minha visão.

ESSE É APENAS UM TEXTO DE ORIENTAÇÃO PARA QUEM QUISER!

Mas é bom lembrar que dentro das artes-marciais orientais a experiência (anos de casa) contam bastante.

Ainda na esfera das "credenciais" é bom salientar que eu conheço pessoalmente meu SOKE e já tive a oportunidade de ir várias vezes ao Japão, em viagens de treinamento, com objetivo de aprender. Esse fato por si só é uma grande dádiva divina, pois que Judoka não gostaria de conhecer e treinar com o próprio Jigoro Kano Sensei? ou que Aikidoka não gostaria de ter tido a oportunidade de receber uma técnica de Morihei Ueshiba Sensei? Pois é, eu tive essa oportunidade! Eu, enquanto praticante de Bujinkan Budo Taijutsu, tive o privilégio de conhecer e treinar diretamente com o SOKE fundador do nosso estilo.

Para aqueles, que nesse momento, pensaram em reclamar sobre a palavra "fundador", a Bujikan como a conhecemos foi criada por Masaaki Hatsumi Sensei. Baseada nos conhecimentos das 9 escolas (essas sim criadas por SOKES antecessores), mas isso é assunto pra outro momento.

Pretendo aqui comparar o que, na minha visão, demonstrar a linha de progressão de conhecimento (em matéria de quantidade e não qualidade) das seguintes artes-marciais: Bujinkan Budo Taijutsu, Kendô, Karatê-dô, Aikidô, Judô e Jiu-Jitsu (esse último vou deixar na grafia abrasileirada para facilitar na identificação).

Parâmetros

Fiz uma análise do que, na minha visão, é uma linha do tempo consistente de treinamento e exposição a conteúdo técnico durante 20 anos (tempo razoável). Lembrando que o ponto de partida é o início da jornada marcial de um praticante, o caminho pressupõe um caminho saudável trilhado com dedicação e perseverança e o corte final aponta para um praticante maduro e experimentado. 

Sei que existem desvios desde: Praticantes com 20 anos de casa na faixa-branca e "mestres supremos do universo marcial" com menos de 5 anos de prática. Mas pretendo não tratar dos boarderliners nessa oportunidade. Quem sabe em outra postagem.

Análise

Minha análise gira em torno da seguinte afirmação:

A ESPECIALIZAÇÃO É PROPORCIONAL AO TEMPO DEDICADO DIVIDIDO PELA QUANTIDADE DE TÉCNICAS ESTUDADAS!

Lembrando que, via de regra, o tempo é igual para todos e, salvo pessoas geniais e pessoas estupidas, os seres humanos têm a capacidade de aprendizado com razoável grau de semelhança, ou seja, a minha análise considera que:

Quanto mais conteúdo o praticante tem acesso, menos especialista ele é!

Praticante muito especialista:

Esse praticante, na minha concepção, é aquele que dentro de um grupo técnico limitado e específico é totalmente versado, sabe amplamente tudo sobre aquelas técnicas e aplica as mesmas com a máxima proximidade da perfeição possível, considerando cada detalhe da execução técnica como passo importante para se alcançar o objetivo, porém limitando sua visão a apenas aquele grupo técnico. Normalmente tem sua linha de ação a tendência de aplicar sempre aquelas técnicas.

Praticante pouco especialista:

Esse praticante, na minha concepção, é aquele que não se limita a um grupo técnico específico, ele mantém seu leque de possibilidade sempre amplo e é capaz de aplicar uma diversidade enorme de técnicas, visando mais a eficácia de uma saída para as situações que surgirem. Esse praticante geralmente não se preocupa com a perfeição e cada detalhe da execução, mas se preocupa em sobrepor os problemas que surgirem. 

Tendo em vista esses conceitos elaborei o seguinte gráfico:


Montei esses dados baseado em meus conhecimentos pessoais e algumas pesquisas que realizei sobre as artes-marciais envolvidas.

Algumas das artes-marciais analisadas se concentram durante muitos anos em uma estrutura limitada de conteúdo.

Nas artes que têm seu foco mais voltado para a luta (espaço limitado, conjunto de golpes específicos e regras muito bem definidas) é compreensível que gastem seu tempo inicial (praticantes com idade hábil para atividades esportivas e com possibilidade de se tornarem atletas representativos) gerando especialistas com alto grau de eficiência na aplicação desse grupo técnico.

Já nas artes que têm seu foco mais voltado para a imprevisibilidade das situações da vida (sem limitação de espaço, sem obrigatoriedade de golpes específicos, sem juiz ou regras definidas) gastam seu tempo inicial (praticantes jovens e com o ímpeto imprudente da juventude) despejando muito conteúdo técnico para que em qualquer que seja a situação a sobrevivência seja uma opção.

Conclusão

Sinceramente, não consigo ver muita diferença entre praticantes de qualquer arte-marcial quando se alcançam seus 20 anos de treino. Geralmente todos são experimentados o suficiente para serem prudentes, não se considerarem invencíveis e acumulam "cicatrizes de guerra" o suficiente para não "meter a mão em qualquer cumbuca".

Com essa visão mais "analítica" da quantidade de conteúdo que vemos sendo distribuído durante a vida de praticante de um artista marcial é possível entender a diferença entre seus praticantes e como se comportam perante as situações que lhes são propostas pela vida.

Se algum leitor de alguma arte marcial, que não da Bujinkan, se sentiu de alguma forma descontente com minha análise, quero que saiba: Sou profundo admirador de todas as artes supracitadas e estou sempre disposto a aprender com meus BUYUS dessas escolas. Consideros que vocês são corajosos guerreiros que optaram por um caminho diferente do meu e estou sempre pronto para aprender com vocês com respeito e admiração.

Um forte abraço e fiquem com DEUS!

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Ser um UKE de Excelência

UKE é uma variação do verbo japonês UKERU (受ける) que pode ter “receber” ou “aquele que recebe” como tradução. Dentro do ambiente de DOJO (道場) de arte marcial é a palavra que define o BUYU (武友), ou colega de treino, que irá te auxiliar no treinamento se dispondo a receber a técnica
que você irá aplicar.
Ser um bom UKE é se sacrificar e oferecer o próprio corpo para que seu colega de treino aprenda uma técnica, conceito ou sentimento. Muitas vezes o UKE corre o risco de se lesionar em prol do treinamento alheio.
Alguns praticantes são naturalmente bons UKEs e outros necessitam de algum amadurecimento técnico, mental ou até mesmo espiritual para se tornar um bom UKE.
A verdade é que encontrar um bom UKE ou um UKE ruim pode influenciar muito na sua experiência de aprendizado.
Outra verdade é que bons UKEs são sempre demandados pelos professores e ou praticantes mais experientes e com isso são aqueles que mais têm oportunidades de aprendizado, pois quando se têm a oportunidade de treinar frequentemente com colegas mais experientes, as oportunidades de aprendizado são sempre muito interessantes.
Existe um vetor dentro a atuação de um UKE que vai do extremo de rigidez, resistência e força até o outro extremo de passividade, falta de resistência e entrega. Os dois extremos são prejudiciais ao bom andamento do treinamento e as vezes até tornam o treinamento frustrante. Depois de algumas de décadas de treinamento, penso que o bom UKE é aquele que entende a movimentação do colega de treino e atua em perfeito equilíbrio com as necessidades da técnica a ser praticada.
Compreender o que é necessário fazer, quando endurecer e quando aceitar é fundamental para um bom UKE.
Ouvir, confiar, aceitar e respeitar as instruções de como agir vindas do parceiro de treino que irá aplicar a técnica é essencial para se atuar como um bom UKE. Aprender a realizar a leitura de uma movimentação corporal para compreender qual é o seu papel dentro de uma técnica também é uma habilidade desejável para se tornar um bom UKE.
Um bom UKE é aquele que durante o processo de aprendizado, molda suas atitudes para estar em harmonia com o colega de treino, com a técnica e com o ambiente que o cerca.
Ter um bom preparo físico, flexibilidade e maleabilidade são pontos fundamentais para quem pretende desenvolver as habilidades de um UKE de excelência.
Para ser um bom UKE você terá que estudar muito os princípios fundamentais da arte marcial tais como:
  • KAMAE: Posturas;
  • TAIHEN JUTSU: Movimentação do corpo, quedas, rolamentos, esquivas e estudo das direções;
  • UKE NAGASHi: Absorção, bloqueios, contra-ataques, deflexões e evasões;
  • HOKEN JUROPO: As diversas formas de ataques utilizando os punhos; e
  • KERI WAZA: as diversas formas de utilização das pernas e pés para atacar, defender e caminhar.

Se alguém ainda não entendeu que a busca pessoal para se tornar um bom UKE é indispensável para o verdadeiro aprendizado da arte marcial, essa pessoa ainda não compreendeu a verdadeira essência do BUDO (武道).

Um forte abraço a todos e que os bons ventos marciais soprem sobre vocês.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Decidindo mover ou não mover montanhas

Deus, através das situações (provações e bênçãos) da vida, tem me ensinado muitas coisas e entre elas creio que uma das mais marcantes é a necessidade da perseverança, persistência e constância nas ações para alcançar determinados objetivos.
Como é de conhecimento comum, uma das minhas principais atividades atuais é a prática da arte marcial e nos últimos meses tenho me dedicado a ela com uma intensidade bem maior, tanto como professor quanto como praticante.
Nesse meio de arte marcial venho ministrando aulas a aproximadamente 13 anos e praticando a aproximadamente 20 anos e uma coisa que sempre me intrigou foi o “turn over” que envolve esse tipo de atividade.

Para as pessoas que não estão familiarizadas com o termo:
“Turn over” é um termo da língua inglesa que significa "virada"; "renovação"; "reversão" sendo utilizado em diferentes contextos. É um conceito frequentemente utilizado na área de Recursos Humanos (RH) para designar a rotatividade de pessoal em uma organização, ou seja, as entradas e saídas de funcionários em determinado período de tempo.



Durante esse tempo supra citado tive a oportunidade de observar centenas de colegas iniciarem o caminho marcial. Alguns tiveram fôlego para apenas alguns meses, outros permaneceram por alguns anos e depois desistiram, uns, muito poucos alcançaram as dezenas como contadores anuais e depois se foram e uma fração mínima, realmente uma exceção à regra, se mantiveram no caminho sem desistir.

Na arte marcial, assim como em toda a vida, o caminho é difícil, principalmente se o indivíduo pretende fazer tudo da forma correta, ser honesto e disciplinado. Todo o caminho pautado por esses valores é um caminho mais difícil, cheio de obstáculos. Alguns desses obstáculos são fáceis de se transpor e outros são “montanhas no caminho”.

E acredite, “montanhas no caminho” existem para todos. 

Sem exceção!


Não sei se o leitor está habituado a enfrentar montanhas. Eu tive a oportunidade de enfrentar montanhas, algumas vezes. Literalmente. Minha montanha preferida é o Pico da Bandeira.
O Pico da Bandeira é o ponto mais alto dos estados do Espírito Santo e de Minas Gerais, como também de toda a Região Sudeste do Brasil. É também o terceiro ponto mais alto do país, com 2.891,98 metros de altitude.
Já o encarei por mais de um caminho diferente e por mais de doze vezes já venci esse “velho amigo”.



Através da prática do montanhismo aprendi que é possível ir além daquilo que nós mesmo acreditamos ser alcançável para o nosso corpo. “Mover uma montanha” ou superar uma montanha, nesse caso podem ser considerados sinônimos, é uma atividade que envolve um esforço, que as vezes, vai além das nossas capacidades. Encarar uma grande montanha, requer uma mente focada na tarefa, uma vontade forte de concluir o objetivo e principalmente sentir a necessidade emocional de vencer o obstáculo.
Conversando sobre montanhismo com várias pessoas, sempre ouvi a seguintes afirmações:
“...enquanto você sobe a montanha eu fico no hotel com aquecimento e conforto...”, “...pra que passar por todo esse sofrimento se eu posso ver as fotos ou vídeos?...” e etc.
A questão é: As “montanhas” existem em nosso caminho. Algumas delas nós podemos decidir superar ou não e outras, nós não temos escolha.


Voltando à prática de arte marcial: Sempre vejo as pessoas desistindo do caminho, porém uma grande parte delas mantém o discurso: “...eu amo essa arte (ou atividade), porém agora está difícil de continuar...”. Seja pelo trabalho, compromissos familiares ou coisas do dia a dia, muitas pessoas simplesmente desistem de continuar um determinado caminho que lhe faz bem por não ter mais força de vontade para lutar contra as dificuldades, ou seja, desistiu de tentar “mover as montanhas” do caminho.

Outra verdade, no que diz respeito a arte marcial é “...esse caminho não é para qualquer um...”. Essa máxima pressupõe que pessoas com uma força de vontade comum e que não tem por costume alimentar aquela chama interna que nos leva a superar os desafios propostos, não abandona o seu conforto para ir até um Dojo (local de prática de arte marcial) para ter desafios exaustivos de aprendizado e superação.

Analisando o alto índice de desistência e abandono dos Dojos atualmente, cheguei à conclusão de que realmente a cultura mundial de satisfação a qualquer custo e com o menor esforço possível é umas das variáveis que trabalham contra a cultura marcial. E principalmente a superficialidade com que as pessoas estão acostumadas a lidar com seus desafios buscando sempre “caminhos alternativos” para desistir de transpor obstáculos.

Observando tudo isso, um verso da uma canção popular brasileira me veio à cabeça:

“...Não se move uma montanha por um pálido pedido de alguém que não se ama...”
Palavras e silêncio (Zeca Baleiro)

Meditando mais sobre o assunto, me lembrei também das palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo:

“...porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela...”
Mateus 7:14

Creio que o que há para se pensar a respeito do assunto é: Todas as vezes em que um obstáculo intransponível estiver em nosso caminho devemos analisar o quão realmente é intransponível esse obstáculo.

Se absolutamente nada de bom, nessa vida, virá de graça, será que não vale a pena se esforçar de verdade por algo que amamos? E se não, será que realmente amamos?

Que este ponto de meditação fique para os leitores desse texto e espero que os ajude nos momentos de dificuldades e nas “montanhas as serem movidas” de seus caminhos.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

E meu joelho Dói!



Acordo bem cedo e faço meu café da manhã. Sempre solitário, porém é gratificante ter o conforto de um belo rompimento de jejum noturno. E meu joelho dói.


Dirigir durante quase uma hora em um trânsito repleto de pessoas mal preparadas, não somente para conduzir seus veículos, mas também para viver em sociedade. E meu joelho dói.


Um dia de trabalho duro, com seus altos e baixos. Adoro meu trabalho, mas a rotina imposta pelos bem mais de 20 anos de profissão não trazem muitos desafios estimulantes, mas a dignidade de conquistar diariamente o próprio “pão” é gratificante, porém meu joelho dói.


Dirigir novamente durante quase uma hora em um trânsito repleto de pessoas que além de suas características supracitadas também agora, assim como eu, estão cansadas. E meu joelho dói.



Um breve descanso e é hora de limpar o Dojo, arrumar tudo, preparar as técnicas a serem ensinadas. Mais um acerto na decoração, o tatame limpo e um banheiro desinfetado e meu joelho dói.


Aguardo ansiosamente por aqueles os quais supostamente estão engajados no processo de aprendizado de um conjunto de coisas (cultura, sabedoria, técnica e conhecimento) que adquiri com um custo infinitamente superior ao que é cobrado por mim. Custo não tão somente financeiro, mas também de dedicação de vida. E meu joelho dói.


Apenas uma fração do grupo aparece e se iniciam as atividades de ensinar, praticar, aprender e suar. E meu joelho dói.



A cada instante lembro-me daqueles que, como eu, trilharam esse caminho. O caminho do guerreiro. O caminho mais inglório, mais irregular, mais duro e mais árduo. Alguns desistiram da jornada, outros ainda trilham esse caminho, mas há muito tempo estão distantes. Lembro-me da máxima: “O caminho do guerreiro é um caminho que se trilha só.”. Cada recordação vem junto com a carga de coisas (cultura, sabedoria, técnica e conhecimento) a ensinar. E meu joelho dói.

A aula acaba e os poucos que vieram se vão. Hora de fechar tudo, encerrar as atividades diárias e tentar relaxar para descansar e amanhã fazer tudo igual novamente. E meu joelho dói e como dói.